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Reflexão

Reflexão publicada em: 21/09/2009

Universidade do prazer

Fonte: Gilberto Dimenstein

Diante da frase "baladas e jogos me motivam mais do que as aulas", apenas 16,1% dos estudantes das universidades da capital e região metropolitana de São Paulo disseram discordar totalmente. Uma expressiva parcela (52,3%) admitiu que fumou maconha; muitos certamente preferiam não revelar nada. Beijar na boca várias pessoas numa única noite é rotina.
O resultado é que muitos enxergam no ensino superior um espaço de prazer, onde se misturam baladas, drogas e sexo.
Estamos falando aqui de 15 universidades, entre as quais USP, PUC, Unifesp, Anhembi, Mackenzie, FGV, FMU, Unip, Anhembi Morumbi - ou seja, locais que produzem a futura elite política, empresarial, cultural e social do país.
Valorizar mais as baladas -a disseminação da maconha pelos campi ou as festas universitárias - do que as aulas seria uma fase passageira, típica da liberdade e transgressão juvenis?
Em parte sim, claro.
"Minha suspeita é que existe um jeito de encarar o mundo que vai além de uma atitude juvenil", comenta Marcos Calliari, responsável pela pesquisa.
O levantamento entre universitário foi feita pelo Namosca, agência de marketing focada em entender o que passa pela cabeça dos jovens - e, para isso, montou uma rede de entrevistadores e contatos entre os próprios estudantes para facilitar a obtenção das informações.
A suspeita de Calliari, a partir desse levantamento, é como um imediatismo exacerbado marca uma geração. O levantamento indicou que 77% dos entrevistados já beijaram na boca mais de uma pessoa num dia; 89% disseram que beijaram logo no primeiro encontro. "È um pouco como se não houvesse um dia depois de hoje", analisa.
Isso pode significar também que o consumidor vai mudar cada vez mais rapidamente de marcas. Ou que não terá paciência para abrir a conta num banco se tiver de assinar muitos papéis ou formulários na internet. Nem entrar num site que exija cadastramento.
Talvez explique a prosperidade da indústria de venda de trabalhos escolares (até dissertações). Ou por que muitas pessoas mudam tanto de curso de curso no ensino superior, criando uma alta taxa de evasão.

Valorizar mais baladas - a disseminação da maconha ou as festas - do que as aulas seria uma fase passageira?

O desinteresse pela política não se deve só à ojeriza aos políticos, mas porque os debates implicam pensar e planejar o futuro - a chance de conseguir um emprego estaria condicionada mais ao desempenho individual do que ao coletivo. A frase "meu sucesso depende apenas de mim mesmo" é discordada toralmente por apenas 3,4%.
Se Lula esbanja popularidade no páis, falta-lhe identificação nesse grupo. Apenas 19% desseram que "gostariam de tomar uma cerveja com ele". È, aliás, a mesma porcentagem dedicada a Fernando Gabeira, que tem entre suas propostas a descriminalização da maconha e a defesa ambiental. Cerca de 40% gostariam de tomar uma cerveja com o ator Selton Mello; 33% com o apresentador Luciano Huck, empatado com Wagner Moura. Para 45%, Sérgio Groismann entende da juventude; 25% tomariam a cerveja com ele.
Não empunhar discurso moralista nem saudosista; o passado não foi melhor do que o presente. Muito menos deixar de entender que a juventude é um período, ás vezes arriscado, de testes de limites e experimentações. Mas a pesquisa sugere um problema: a dificuldade de focar e desenvolver um projeto, o que exige necessariamente postergar prazer. Mas esse culto excessivo da celebridade, da pressa e do prazer não vai acabar bem.
Não é por outro motivo que, apesar do desemprego, grandes empresas têm uma crescente dificuldade de recrutar trainees - isso apesar de que, em alguns casos, há mais de 3.000 candidatos por vaga.
O que pode estar acontecendo é até mesmo uma mudança na paisagem das elites. Os jovens de periferia, mais focados e com mais garra (afinal, sobreviveram ao massacre educacional), que começam a chegar às faculdades públicas, ganharão cada vez mais espaço. Estudaram de noite e nos finais de semana para alcançar, para ter o prazer de entrar na faculdade e garantir um bom emprego.
PS - Entre os vários dados que me chamaram a atenção, um deles se destacou. Indagados sobre o estilo musical preferido, não houve pontuação, nem apareceu na lista, música erudita. Será que é consequência do imediatismo e a dificuldade de lidar com obras mais complexas? Fico imaginando se, num futuro breve, as salas de concertos não estarão vazias. A integra da pesquisa está no www.dimenstein.com.br.
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